FESTA DE ERÊ TERREIRO ARUANDA
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FESTA DE ERÊ TERREIRO ARUANDA 〰️
A Festa dos Erês integra o
calendário votivo da Umbanda e, para além da dimensão religiosa, reafirma a força das tradições afro-brasileiras recriadas em meio a condições adversas. Como aponta Lélia Gonzalez em Festas Populares no Brasil, essas celebrações são também formas de resistência e afirmação do direito à cidade. Ao ocupar as ruas, o povo de santo reivindica presença, pertencimento e dignidade em espaços historicamente negados, marcados por políticas excludentes que dificultam o acesso à moradia e à consolidação dos terreiros. Assim, as festas públicas se tornam atos políticos
e sociais, garantindo cultura, lazer e visibilidade negra.
Origem e Significado
A Festa de Erê no Aruanda começou a ganhar o formato atual em 2022, como desdobramento das reflexões sobre alimentação, infância e tradição dentro da casa. Antes disso, a celebração se limitava à entrega de doces às crianças da comunidade. A partir de 2021, surgiu o desejo de transformar essa prática, conectando-a aos fundamentos das religiões de matriz africana e à necessidade de oferecer uma alimentação mais saudável e ancestral.
Durante essa jornada, uma mãe de santo entregou um prato de caruru com um quiabo inteiro, gesto que, segundo a tradição oral, exige uma contrapartida: oferecer caruru aos Erês e Ibejis como símbolo de prosperidade e proteção.
Esse episódio marcou o início da tradição do caruru no Aruanda, como ritual e oferenda. Desde então, a festa passou a incluir vatapá, caruru, pipoca, farofa de banana da terra, acarajé, entre outras comidas sagradas. Todas as oferendas respeitam os fundamentos da casa, sendo direcionadas a orixás como Obaluayê, Oyá e Xangô.
Festa de Erê 2025
Em 2025, o Terreiro Aruanda celebrou mais uma edição da Festa dos Erês, desta vez em parceria com a Prefeitura da Cidade de São Paulo. A rua foi fechada e transformada em um grande espaço de convivência, devolvido às crianças de forma literal e simbólica.
O evento recebeu cerca de 700 pessoas e distribuiu mais de 600 sacolinhas de doces, 100 porções de frutas e 500 pratos de caruru. A comida, a música e a brincadeira se encontraram para celebrar o encantamento e a vida, reafirmando o papel dos terreiros como espaços de cuidado, alegria e resistência.
A Cozinha,
o Cuidado e a Produção
O Caruru e o Mito
O caruru, prato central da celebração, está presente nas narrativas sagradas das religiões de matriz africana.
Segundo o itan, toda vez que Xangô ia comer seu amalá, Exu roubava sua comida. Para resolver o impasse, os gêmeos Ibejis desafiaram Exu para uma disputa de dança. Como se revezavam sem que ele percebesse, Exu se cansou e perdeu o desafio. Como recompensa, os Ibejis pediram que sempre que houvesse amalá, uma porção fosse preparada sem pimenta, dando origem ao caruru. Em memória desse acontecimento, os Ibejis são homenageados com o caruru, prato que reúne oferendas de vários orixás:
Quiabo para
Xangô
Pipoca para Omolú
A organização da cozinha da festa é liderada por Ana Pallottini, filha de Oyá, iniciada para Pombagira, nutricionista, pesquisadora e mulher negra de terreiro. Com formação pela UNESP e especializações pela USP, atua no SUS e integra sua prática profissional à vida no terreiro, articulando saúde, segurança alimentar e cultura afro-brasileira.
Ao lado dela, Camila Barraca (Camila Spolon Silva) — historiadora, mestranda em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela USP e pesquisadora das tradições alimentares na Umbanda — idealiza e coordena a Festa de Erê como parte de um projeto maior de preservação da memória, da alimentação e da infância nos terreiros. Camila é também autora do capítulo O Racismo está Servido: O apagamento das Cozinhas de Axé a Partir do Mito Fundador da Umbanda, no livro Antropologia da Alimentação: Um olhar interdisciplinar e do podcast Comida de Terreiro, iniciativas que ampliam o debate sobre racismo alimentar, ancestralidade e direito à cidade a partir da experiência vivida dentro do Aruanda.
Juntas, Ana e Camila constroem um espaço que une educação, espiritualidade e cuidado, onde as crianças aprendem sobre os alimentos dos orixás, compreendem a importância da nutrição e se fortalecem com saberes que unem o corpo, o axé e a memória.
Mais que uma celebração, a Festa de Erê é um compromisso com a formação das crianças da comunidade, bem nutridas, bem cuidadas e conscientes de sua herança.
A comida, nesse contexto, é elemento central. A fartura alimentar não se resume ao gesto de partilha: representa uma linguagem simbólica que afirma a abundância como direito e contrapõe-se ao histórico de escassez e fome imposto ao povo negro. Ao oferecer pratos preparados coletivamente, o terreiro constrói uma comensalidade que preserva memórias, fortalece identidades e sustenta um pensamento crítico sobre a alimentação digna, em contraste com a lógica dos ultraprocessados.
Farofa de
banana frita
para Oxumarê
Acarajé para
Oyá
Vatapá para
Oxum
Festa de erê na mídia
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Atina pra isso #23: Ibeji, Erês, Vunjis, Crianças…
Num mundo com tanto desencanto, onde até o arco-íris parece ser preto e branco, é preciso encanto, feitiço e festa para afastar a desesperança. É nesse contexto que se celebra o culto dos Erês, dos Ibejis, dos Cosminhos — celebrações do lúdico que nos lembram que somos mais do que nossas dores.
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Terreiro de Umbanda recebe formação universitária de extensão no projeto “Festa dos Erês como Espaço de Cuidado Alimentar e de Saúde”, promovida pelo Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC/USP)